[Glória]

ô, vem cá.

essa minha cara marrom causa muita estranheza e confusão por essas bandas. are u Mexican? Puerto Rican? Shakira Shakira?

quase todo mundo acha que a América Latina é só o México/Porto Rico e vice-versa. então, se você entra num mercado Mexicano ou em qualquer outro estabelecimento Latino/Hispano e não fala Espanhol, as pessoas podem achar que você é metida a besta por se comunicar em Inglês. não passa pela cabeça da galera que você pode ser Latina e falar Português. na verdade, a maioria das pessoas nem sabe que o Português existe.

pois bem.
dito isso, deixa eu contar pra vocês uma coisa que aconteceu:

a Eliana é uma moça que começou a trabalhar com a gente lá no escritório não tem nem um mês. dia desses, ela levou pro pessoal um doce (MADE IN MEXICO) chamado GLÓRIA (esse nome, eu sei). GLÓRIA é basicamente doce de leite de cabra com nozes e talvez seja a coisa mais próxima do Paraíso que existe na face da Terra. sem brincadeira, rolei na areia e fiquei louca, muito louca com o tal do doce.

daí, lógico, achei que seria SENSATO criar o meu próprio estoque de GLORIAS. lembrei, então, de um mercadinho Mexicano que eu sempre vou quando quero comprar produtos parecidos com os do Brasil e tenho dificuldade para encontrar, tipo suco de maracujá, massa de pastel, mandioca, etc. só que nesse mercadinho sempre rola climão quando eu peço alguma ajuda, afinal, não falo Espanhol e eles juram que o idioma do Almodóvar seja a minha língua materna e INSISTEM. como eu não estava num dos meus melhores dias, decidi evitar o conflito pessoalmente e liguei para o lugar.



mercadinho: HOLA
eu: hello, I'm looking for...

(a atendente do mercado desliga o telefone)

pensei: tá certo, a garota não deve falar Inglês e talvez esse seja um ótimo momento para eu tentar começar a falar em Espanhol? tirei o celular da bolsa e joguei lá no Google Tradutor "DESCULPA O MEU ESPANHOL, MAS VOCÊ TEM UM DOCE CHAMADO GLÓRIA?".

pedi pro Andy parar o carro para eu TREINAR a frase antes de ligar:

Disculpa mi español. ¿Tienes un dulce llamado Gloria?
Disculpa mi español. ¿Tienes un dulce llamado Gloria?
Disculpa mi español. ¿Tienes un dulce llamado Gloria?

o Andy não sabia onde enfiar a cara, tamanho o ridículo da cena. mas, enfim, eu precisava do doce. quando achei que já estava a Anitta do rolê, liguei novamente: 

mercadinho: hola!
eu: hola, desculpe mi español. usted tiene un dulce llamado GLORIA?
mercadinho: QUE?
eu: sorry, can I just speak in english?
mercadinho: si, si, un poquito.
eu: ok. i'm looking for this candly called GLORIA.
mercadinho: COMO?
eu:  a candy... gloria...
mercadinho: A CANDY? ES UN BOMBÓN?
eu: KIND OF. GOAT MILK AND NUTS.
mercadinho: UN MOMENTO.
eu: OBRIGADA!
mercadinho: OBRIGADA!

7x1: você voltou pra dizer se tinha o doce? a moça do mercadinho também não. nunca mais.

[Craigslist]

se tem coisa melhor do que Deep Dish Pizza no país Estados Unidos da América, essa coisa se chama Craigslist. e eu não estou sendo irônica. eu sei que quem já conhece o site, deve estar revirando os olhos e lembrando dos causos assustadores que já rolaram por lá. porém, desde que eu me mudei para cá, praticamente virei a rainha dos "deals". um exemplo foi quando a gente estava fazendo orçamento para comprar um fogão novo (o nosso tinha mais de 15 anos). enquanto nas lojas a gente não encontrava por menos de $400, acabamos encontrando um 0km por $180 lá mesmo, no site do Craig.




a Craigslist funciona mais ou menos como a OXL no Brasil, só que com pessoas mais bizarras. quer dizer. a maioria das nossas negociações aqui foram tranquilas, com pessoas aparentemente normais. tudo bem que sempre rola aquela sensação de que vamos ser sequestrados durante o pagamento, mas tentamos ser cuidadosos ao extremo: marcamos com anunciantes/compradores em locais movimentados e a luz do dia. e só vamos até a casa da pessoa em último caso, como da vez q tivemos a excelente ideia de aceitar o piano de alguém que estava doando. visualizem a cena: tivemos que enfiar um piano no bagageiro do carro. vocês já pegaram um piano? aquilo não é gaita.

então. tudo tranquilo e favorável até o dia que encontramos um sujeito vendendo 50 cases de CD por $10 - a gente tava numa vibe de organizar a nossa coleção de CDs, etc. achei o preço mais do que justo e escrevi pro cara, que respondeu no mesmo minuto. era domingo, estávamos sem nada pra fazer, então ficamos de encontrar o vendedor mais tarde.

era o meu primeiro ano aqui e eu estava pedalando com o inglês. daí para fazer as negociações, eu entrava em contato com a pessoa por e-mail e o Andy ligava para fechar o negócio. foi aí que a coisa começou a ficar estranha. pra começar, o sujeito queria nos encontrar em um estacionamento por volta das oito horas da noite. estacionamento? sei lá, a gente esperava um lugar com luzes, gente bonita e clima de paquera, mas:



topamos, afinal, CASES DE CD É QUESTÃO DE VIDA OU MORTE. quando chegamos no local combinado, o estacionamento estava praticamente vazio. só havia um carro estacionado que, LÓGICO, concluímos ser o do vendedor. ligamos para confirmar e, para a nossa surpresa (ou alegria), o cara disse ainda estar a caminho.

não demorou nem dois minutos para um SEGUNDO carro se aproximar. AGORA VAI? claro que não, e o cenário agora era o seguinte: dois carros, todas as luzes apagadas, ninguém entra, ninguém sai e eu já pensando na minha mãe recebendo a notícia do meu sequestro. antes que eu entrasse completamente em PÂNICO, finalmente o tal sujeito me aparece em uma van.

PRONTO.

a única coisa que eu consigo pensar quando vejo uma van nesse país é: sequestro e 85 anos de cativeiro em um basement sujo. pedi pro Andy desencanar daquilo e, evidente, ele não desencanou. fiquei no carro acompanhando toda a cena: o vendedor abriu a porta da van, tirou a caixa, entregou para o Andy, recebeu os dez dólares e se despediu. foi o Andy virar as costas para os dois homens, QUE JÁ ESTAVAM LÁ, SAIREM DOS SEUS RESPECTIVOS CARROS E ENTRAREM NA VAN. ou seja? ELES SE CONHECIAM. sim, eles largaram os carros lá, entraram na van e foram para SÓ DEUS SABE.


não teve sequestro, mas eu SURTEI. jurei que estávamos sendo alvo de um ataque terrorista. comecei a IMPLORAR para o Andy enconstar o carro e verificar o pacote. perdi as estribeira completamente. ANDY, PELO AMOR DE DEUS PARA ESSE CARRO ISSO É BOMBA. A GENTE ESTÁ CARREGANDO UMA BOMBA. PARA ESSE CARRO. NÃO FAZ SENTIDO TRÊS CARROS COM AQUELE TANTO DE HOMEM SÓ PARA ENTREGAR UMA CAIXINHA COM CASES DE CD. EM QUE PLANETA VOCÊ VIVE? NÓS VAMOS MORRER. PARA ESSE CARRO AGORA. ISSO É UM ATAQUE TERRORISTA. PELO AMOR DE DEUS.

cara.
a minha cabeça.

7x1: Andy parou, sim, o carro para examinar caixa e encontrou, isso mesmo, 50 cases de CDs. 

[Caturday]



e o Obama esteve em Columbus uma semana antes das eleições presidenciais. "e eu com isso?" você deve estar se perguntando. você com isso nada, mas eu curto o cara e, só para vê-lo, acabei parando em uma vizinhança onde o único lugar para comer era um Starbucks (eu não sou lá fã de Starbucks. meu negócio mesmo é o Tim Hortons). 

chegamos na região da Universidade bem cedo, pois nossa experiência no rally com o Bernie Sanders não foi muito bacana - ficamos quatro horas na fila e vimos o Bernie por 10 minutos. então, aproveitamos o tempo extra que tínhamos e demos um pulo na tal cafeteria. eu precisava de um expresso e de um copão de água. o Andy precisava comer alguma coisa e pediu um trem com bacon que o fez ir ao banheiro pelo menos uma cinco vezes naquele dia. cara, eu nunca vou entender o hype do Starbucks. quem explica?

pois bem, tomei o meu café, Andy comeu o lanche dele e saímos em direção ao lugar onde seria o rally. havia alguns manifestantes na área, por conta da construção de um oleoduto em uma região índigena em North Dakota (a construção foi cancelada na semana passada), mas mesmo assim, o clima era total de "Yes, We Can". a gente estava quase chegando, quando um vendedor ambulante pulou (literalmente) na minha frente. 

vendedor: I'LL GIVE TWO BUTTONS FOR FREE IF YOU GIVE ME THIS GLASS OF WATER.

(eu ainda tinha meu copão de água comigo)

eu: não, tudo bem. você pode ficar com água, não precisa me dar nada.

vendedor: não, eu faço questão. pode escolher dois buttons.

(acabei escolhendo o do Black Lives Matter e o Andy pegou um da campanha da Hillary)

vendedor: DO YOU HAVE KIDS?

(imaginei que, pelo fato de sermos casados, ele quisesse dar alguns buttons para os nossos filhos. eu sou mesmo muito tonta.)


vendedor: pardon me? 


Andy: no, we don't have tickets. 

7x1: "Do you have tickets?" foi a pergunta. Ele queria saber se tínhamos ingressos para o rally, sendo que para ver o Robama sequer era necessário ingressos. de qualquer forma, o Andy comprou dois, só para garantir. somos mesmo muito tontos.

[Whole Foods]


o Whole Foods é o meu lugar favorito quando quero comer "comida de verdade" e tô sem pique pra cozinhar. vocês já devem ter ouvido falar dele, porque é um supermercado hipster, que vende comida natureba e que os famosos adoram ir pra causar (tem esse causo da Katie Holmes que é muito bom). eu só fiquei sabendo disso depois. o Andy ia lá pra comprar tapioca flour, mas a gente descobriu um polvilho da Tailândia no mercado internacional daqui, que é tipo três dólares mais barato, e agora só vamos no W.F pra comer mesmo.

daí que certo Sábado, tô eu lá na fila pra pagar minha comida, quando uma senhora resolve me abordar. aqui eles gostam muito da tal "small talk", que é basicamente puxar assunto com qualquer pessoa, sobre qualquer coisa. eu sou de lua. tem dias que, beleza, vamos conversar e tem dias que eu tô "me deixa em paz, pelo amor de deus". pois bem, eu tava num desses dias de "sai daqui".

senhora: hi, have you lived in the Bronx?

(cara, a pessoa nunca me viu na vida e quer saber se eu já morei no Bronx? é a minha cara de Latina, só pode. ela certamente deve achar que eu sou parente de algum "drug dealer". mano, eu tô com fome. sério, me deixa.)

eu: nope, I never lived in the Bronx (but I know someone from there).

(a gente sabe que falou bobagem, quando a reação do receptor da mensagem é parecida com isso aqui)

eu: I'm sorry, what did you ask me?

7x1: a senhorinha estava segurando uma embalagem de comida parecida com a minha e queria saber se a tampa servia na caixa, porque a dela estava caindo. "does your lid fit on your box?". nada a ver com Bronx, nada a ver. golaço do camisa número 4 da seleção Alemã. 

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